BIENAL 2016: nem começou e já tudo dói


O post de hoje não vai ter a imagem de abertura bonitinha, pelo menos não até eu voltar pra casa dia 4 ou 5 e puder editar (edit 16/05/2018: não editei a foto e nem vou). Até tinha preparado uma, mas resolvi mudar o assunto do post de última hora. Então vai um pato mesmo. Também não vai ter formatação direito, porque estou dependente do app do blogger. Se o post sair sem querer, sei lá, em klingon, vocês me perdoem e joguem no google tradutor.

Nunca, na minha vida, arrumei uma mala tão pesada. Na verdade é uma mala, uma bolsa com uma manta, um tênis e um moletom e uma ecobag fazendo as vezes de bolsa.

Metade da mala é comida. Eu não tô brincando. A quantidade de chocolate e bolacha/biscoito é suficiente pra bienal inteira. Mas sou descontrolada, e mesmo depois de comer pizza, coca-cola e chocolate quente ainda quero comer tudo já hoje. A ideia era me poupar de ter que ir atrás disso em supermercado por aqui. Veremos.
A ideia também era que, assim que a comisa acabar, a mala obviamente se encherá de livros.

O que vai deixá-la ainda mais pesada.

Eu já mencionei o quanto essa mala está pesada?

Está pesada o suficiente para ter sido jogada escadinha abaixo quando saí do elevador do prédio em que minha amiga mora, porque eu não tinha mais nem força física nem emocional para arrastar esse troço - e olha que ela tem rodinhas.

Queria que meu emocional tivesse rodinhas, seria mais fácil carregá-lo por aí. Ou não, já que a própria mala já está difícil, imagina aí umas décadas de probleminhas.

Também cheguei em São Paulo toda encapotada de casaco e cachecol, porque FRIO, mas dei de cara com um baita sol. 
Deus zoando com a minha cara obviamente.

Tira casaco.

Depois de carregar o celular, fui atrás de pizza, dorflex e pokémon, e cadê aquele calorzinho de tarde? O ventinho parece virar gelo quando bate na minha perna.

Bota casaco. E cachecol. E meia-calça por baixo da calça.

Agora estou alimentada e me preparando para um banho, enquanto considero gastar um rim de táxi/uber amanhã para ir para a montagem do estande, porque vou de mala e tudo para depois ir para o apartamento onde vou ficar de vez até o fim da Bienal. Porque eu não vou carregar essa mala pesada.

E preciso das minhas mãos livres para pegar pokémon, porque São Paulo parece um par de pokestop.

Prioridades.

7 videoclipes com gente famosa + um bônus creepy pra caramba


Quase morri de amor quando vi o Ian McKellen sendo fofo no video de Listen do the man do George Ezra (aliás foi assim que eu conheci o George Ezra), e um tempo depois quase morri com o Idris Elba em Lover of the light do Mumford & Sons. Aí é aquela coisa, BEDA, a gente precisa de pauta, então toma aqui 7 videoclipes com participação de gente famosa sendo linda, gente famosa sendo fofa e gente famosa sendo creepy pra caramba (oi Rosamund Pyke).


Como lida com esse amor em forma de ser humano chamado Ian McKellen?


Idris Elba a gente agradece todo dia por existir e esse video ainda é lindo


Difícil não rir com Tom Hanks sendo fofinho


Danny DeVito dirigindo um video de One Direction eu nem tenho palavras


Dianna Agron 


Angelina Jolie é linda de qualquer jeito


Aubrey Plaza descontroladíssima


BÔNUS CREEPY PRA CARAMBA

Rosamund Pike e um orbe bizarríssimo EU FIQUEI COM MEDO




No meio do caminho tinha um monte de ganso


O parque em que comecei a caminhar todos os dias por culpa de Pokemon Go (aqueles ovos malditos não vão se rachar sozinhos) é um lugar relativamente tranquilo. O percurso não é muito longo, o que é ótimo para uma pessoa recém saída do sedentarismo completo, e tem uma quantidade de árvores suficiente para fazer sombra na maior parte dele. Não é muito lotado nem muito vazio, dá para ir a pé de casa e ainda é perto de um hospital. Não que isso seja algum tipo de pré-requisito ou algo assim, mas é sempre bom quando o lugar que você começa a ir com frequência é perto de um. Nunca se sabe. A lagoa no centro tem peixinhos e patos, e as pessoas podem jogar migalhas de pão se quiserem.

O parque também tem gansos.

Vários gansos.

Que ficam justamente na reta final do percurso.


Toda vez que chego nessa parte, paro de andar e de olho na movimentação deles, para saber se é seguro passar andando ou se é melhor correr e acabar com aquele pesadelo logo, ou se de repente não é melhor só voltar o trajeto inteiro mas garantir que vou sair de lá viva.

Quem diz que tem medo de barata porque elas atacam obviamente nunca ficou muito perto de um ganso.

Eles não apenas avançam, eles observam a vítima antes, calculando qual a melhor forma de ataque. É desesperador. E eu não estou sozinha nessa. Todo mundo, quando chega nesse trecho, fica com um certo receio quando os gansos estão no meio do caminho. Os frequentadores que preferem correr chegam até a irr mais rápido naquele pedaço, só para garantir. E até ontem eu estava conseguindo escapar ilesa, pois eles sempre estavam mais nas beiradas, deixando o meio livre, ou concentrados juntos em um dos lados, me deixando livre para passar ainda mais longe deles.


Até ontem, quando eles resolveram ficar espalhados por todo o espaço final. E ainda por cima ia começar a chover, então voltar o percurso todo não era uma opção, já que não posso me dar ao luxo de ficar doente faltando só 7 dias para a Bienal. Fiquei parada quietinha, esperando que eles pelo menos abrissem uma brecha pela qual eu pudesse passar rezando para não ser atacada. Talvez teria sido menos pior se eu de fato tivesse sido atacada. Mas não.

Quando finalmente abriu-se um pequeno pedaço em que eu podia passar, três deles resolveram parar e olhar na minha direção.

E ficaram lá. Me encarando. E não pararam até que eu atravessei aquele trecho.

Quando eu já estava meio longe, olhei para trás e eles ainda estavam lá. Olhando.

Aí foram embora, cuidar de seus problemas de ganso. Ou planejar a minha morte.

Na próxima, acho que volto o percurso todo mesmo. Nunca se sabe.

Não disse que era bom o parque ser perto de um hospital?


Resumo das Olimpíadas por alguém que só acompanha pelo twitter


A abertura eu vi e essa eu sei que uniu todas as tribos, como o Norvana.

A gente ama a Marta. Aliás, a gente ama o time feminino de futebol.

A gente não ama muito o time de futebol masculino não.

O Galvão chorou por causa do Neymar, ou alguma coisa assim. Fiquei com dó.

A Sarah do judô perdeu mas a gente ama ela mesmo assim.

Todo mundo vai ter problemas de pressão alta por causa do vôlei.

A gente ganhou medalha no tiro e todo mundo ficou WOAH.

A Danielle Hypolito caiu com a música da Anitta, mas a gente ama ela mesmo assim.

A gente também ama a Anitta, aliás.

A gente ama a Simone Biles e se ela quiser ficar aqui pelo Brasil mesmo a gente tá ok com isso.

A gente também ama o Guga e ele é o labrador oficial do país.

Gringo reclama do café, gringo reclama do kibe, gringo reclama de biscoito de polvilho. gringo reclama que a torcida brasileira grita, gringo reclama dos trajes de banho brasileiros.

A gente acha que gringo tem que parar de encher o saco.

E o avião é nosso.

A Colômbia tentou quebrar o Neymar de novo e a gente voltou a amar ele um pouquinho.

A gente ama praticamente todos os ginastas, menos Aquele Que Não Deve Ser Nomeado.

O Phelps um dia ainda vai morrer soterrado pelos milhões de medalhas que já ganhou na vida.

Tem uma moça que nada tão rápido que teve que ficar de boa esperando o resto das competidoras chegarem no final. A gente achou isso o máximo.

Jogamos tanta praga na Hope Solo que o time dela perdeu. Bem feito.

Rafaela Silva ganhou medalha no judô e a gente ama ela muito.

A Leslie Jones veio pro Rio e os comentários dela via twitter são sensacionais.

Todo mundo se identifica com o Bolt na hora que a janta fica pronta.

Fight like a girl, play like a girl. win like a girl.

Alguém precisa dar um rivotril pro Bernardinho, ou chamar um cardiologista.

O avião é nosso.






Frustração e suas aparições sem sentido


Preguiça me leva a fazer uns negócios tão idiotas que sei que devia ter vergonha, mas acontece que a pouca que eu tinha de fazer essas coisas, eu comi.

Sabe aquilo de abrir a porta da geladeira pra pensar? Eu “penso melhor” com um copo de alguma coisa do lado – geralmente água ou coca-cola, mas o problema não é esse. O problema é o que acontece depois que o conteúdo do copo acaba.

Seja água ou refrigerante, eventualmente acabo querendo tomar outra coisa depois. Aí fico olhando pro copo e pensando que deveria levá-lo até a pia pra lavar e poder usar de novo. Mas pergunta se é isso que eu faço.

É isso que você faz?

Não. Não é.


Eu não sei o que acontece na minha cabeça nessa hora que o que eu faço é levantar, ir até a cozinha e pegar outro copo. Até me engano pensando que posso lavar os dois depois (e eu sou muito boa em mentir pra mim mesma que vou fazer alguma coisa sendo que eu sei que não vou), e acabo com dois copos na escrivaninha. E eles ficam lá. Aí eu vou pra outro cômodo, ou jantar, ou o raio que o parta, esqueço daqueles dois copos e acabo pegando outro, que invariavelmente vai comigo pro quarto, e por aí vai, e quando percebo tenho uns 4 ou 5 copos sujos acumulados e ainda fico frustrada por isso ter acontecido sendo que eu podia muito bem ter evitado essa situação desde o começo, lavando o primeiro copo.

Só que eu também não tiro esses 4 ou 5 copos da escrivaninha. Eles ficam lá, ao mesmo tempo uma lembrança eterna da minha falta de vergonha na cara e algo que eu prefiro fingir que não está lá ao invés de apenas pegar os malditos e levar para pia, até que alguém se irrita e os tira de lá.

Eu podia evitar toda essa frustração causada por copos? Podia.

Eu vou? Não.

E a vida continua.






5 perfis de caligrafia e lettering para seguir no instagram


Das contas ~das artes~ que eu sigo no Instagram, algumas das que mais gosto são de caligrafia e lettering. Acho essas coisas muito mágicas, meu sonho um dia conseguir fazer coisas bonitas assim (obviamente nunca vai acontecer se eu não for atrás de aprender e treinar, mas anyway). Separei 5 pra quem quiser encher o dia de mensagens legais escritas/desenhadas com letras lindas.

INSTA DO BEM
A conta do Indiretas do bem é sempre cheia de mensagens bonitas e motivacionais que ajudam a melhorar um dia de merda.

ATELIER IVORY
A Marcela Staub se especializa em convites de casamento, papelaria fine art e caligrafia, o feed todo é a coisa mais linda e dá vontade de casar só pra encomendar tudo com ela.


BY ALINE ALBINO
Além do instagram, a Aline Albino ainda tem um canal no youtube dando dicas de como aprender caligrafia e lettering!

CHALLIGRAPHY BY TESA
O feed da Tesa Padilla é de ficar um tempão parada olhando de tão bonito!

NERDY POST
O melhor da conta da Alexis Lampley fica por conta dos vídeos dela fazendo os letterings.


Aquela vez que afoguei um Santo Antônio e ele se vingou


A minha família não é exatamente religiosa. Não temos costume de ir à missa e coisas do tipo, mas acendemos velas para santos, temos uma imagem de Nossa Senhora e uma de Iemanjá e todo ano colocamos doces para São Cosme e Damião. Nada muito diferente de muitas famílias brasileiras comuns. Eu também não sou uma pessoa exatamente religiosa, nem lembro a última vez que pisei numa igreja e tenho minhas mil e uma ressalvas com várias religiões, mas acendo velas para santos e guias, peço ajuda para São Longuinho me ajudar a encontrar coisas e tenho um pingente de Nossa Senhora que já tem um tempinho não sai do meu pescoço quando eu saio de casa. Nada muito diferente do que muita gente faz todos os dias.

Uma coisa que muitas famílias brasileiras e muitas pessoas fazem, além das promessas para santos, é a famosa simpatia. E desconfio que, de todo o panteão católico, o santo mais requisitado é Santo Antônio. E eu sei que, das simpatias para Santo Antônio, boa parte delas sempre acaba com o coitado em maus lençóis: ou elas envolvem esconder o menino Jesus, ou esconder o santo no fundo do armário, ou colocá-lo de castigo ou de ponta-cabeça num copo d'água, entre outras, tudo isso na esperança de que ele traga o amor verdadeiro, ou qualquer coisa parecida. Todo mundo diz que funciona, todo mundo diz que é besteira.

Ninguém diz que, às vezes, o santo se vinga.


Era época de faculdade, era perto do dia dos namorados ou do dia de Santo Antônio mesmo, não me recordo bem, mas era época das simpatias amorosas. Também era uma época em que eu estava solteira e sem muita coisa melhor para fazer, então quando minha mãe falou brincando que eu devia fazer uma simpatia para o santo, eu pensei "ok". Achei que era meio que o tipo de experiência que todo mundo devia ter pelo menos uma vez, sabe. Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho, fazer uma simpatia para Santo Antônio. Ok. Por que não?

Dei uma olhada na internet e acabei escolhendo uma que consistia em colocar o santo de ponta-cabeça dentro de um copo com água no fundo do armário, de castigo, e só tirar quando ele trouxesse o amor verdadeiro ou qualquer coisa que o valha. Então botei o santo lá e fui continuar a não ter coisa melhor para fazer.

O santo não gostou nadinha.


Não ter coisa melhor para fazer, no caso, era uma festa de faculdade três dias depois da simpatia feita. Eu fui, conheci um cara que parecia simpático, bonitinho, acabamos ficando, trocamos telefone, nada tão interessante assim.

Só que no dia seguinte ele ligou.

Conversamos um pouco, naquela época era mesmo telefone, orkut e MSN (essa história já tem mais de 7 ou 8 anos, só para quem estiver curioso), ele morava perto da minha casa e perguntou se podia passar por lá quando fosse passear com o cachorro. E eu disse ok, por que não? E ele passou. E o cachorro dele era um saco, e nós dois ficamos mais ou menos 15 minutos sentados na calçada da minha casa sem falar nada, porque não tínhamos nada em comum, logo, não tínhamos assunto. E ele foi embora, e eu pensei "ok". Melhor assim. Mas ele quis continuar conversando por MSN, aquela coisa monossilábica de pessoas que não têm nada em comum, logo, não têm assunto. Cheguei até a ir até onde ele morava, mas... enfim. Vocês já notaram o curso da coisa.

Acontece que além de tudo isso, ele foi se mostrando uma pessoa chatinha, inconveniente... e insistente. E eu não sabia o que fazer, porque naquela época ir direto ao assunto não era algo que me parecia uma opção. Então achei que só parar de responder ou dar desculpas esfarrapadas ia resolver.

Não resolveu.


Ele encheu a paciência por quase um mês, até o dia em que ligou me chamando para sair e eu disse que não podia porque estava ocupada pelo resto daquele mês e do próximo. O moço ainda argumentou, indignado, que não ia correr atrás o tempo todo, e eu, do alto da minha falta de tato social comum a pessoas que não sabem como agir nessas situações, respondi "mas não é para correr atrás mesmo".

Depois de desligar, lembrei do santo no armário. Saí correndo, tirei ele de lá, botei no lugar certo, pedi desculpas e disse que nunca mais faria nada parecido.

O moço nunca mais ligou e eu nunca mais fiz nenhuma simpatia.






BEDA e outras coisas que não levei pra frente (mas sempre acho que vou)


BEDA (Blog Every Day August) tem inspiração no VEDA (Vlog Every Day August), mas enquanto um é de videos, o outro é de posts. A ideia é fazer posts todos os dias durante o mês de Agosto (ou Abril também, se não me engano) e muitos blogs participam. Já tinha visto ano passado (não lembro agora se participei ou não, mas se participei, não fui até o fim por motivos que vou esclarecer por aqui mesmo). Quando vi um tweet falando sobre um grupo no facebook (o Se organizar, todo mundo bloga) que estava organizando um BEDA esse ano, decidi participar assim, de última hora mesmo. Sem programar posts nem nada. Na louca mesmo. Mas como sou uma louca medicada, achei melhor não me comprometer a postar todos os dias. Até porque meus compromissos "pessoais de mim comigo mesma" costumam resultar num enorme FUÉN.

Um exemplo disso é esse post do começou desse ano. O one line a day eu larguei mão. Não anda acontecendo nada na minha vida ultimamente e existe um limite de vezes que se pode registrar "meu gato arrancou o rabo de uma lagartixa" sem parecer meio delusional. Talvez eu retome o registro ano que vem pulando 2016 (não gosto de começar coisas assim em meio de ano), talvez ele continue só um livrinho bonito na minha estante. De qualquer maneira, é mesmo um livrinho muito bonito. Também ainda não comecei o 642 things to write about nem o Listografia nem o My bibliofile, mas esses é por pura falta de vergonha na cara mesmo. Mas uma hora vai, porque eu trabalho muito bem com autoengano achando que ainda vou usar essas coisas.

O desafio de leitura do Goodreads eu já me conformei que não vai ser cumprido direito e estou bem de boa com isso. Na verdade estaria mais de boa se o site não ficasse jogando na minha cara que atualmente estou 13 livros atrasada na meta anual. Cala a boca, Goodreads, eu não te perguntei nada!


Mas nem tudo foi um desastre completo. O desafio fotográfico da Sernaiotto, o The fabulous project, eu continuo fazendo. Às vezes pulo algum ou alguns dias, mas acho que o importante é que ele continua a ser feito e eu adoro fuçar na tag e ver as fotos legais que as pessoas postam. O Uma pergunta por dia está estranhamente em dia, ainda que os registros não pareçam muito animadores. E Agosto não vai ser um mês ruim porque tem a Bienal de São Paulo. Talvez seja aí que o BEDA por aqui diminua ou suma, porque estarei fora de casa e com internet só no celular. Ou talvez ele se transforme em posts sem diagramação decente mesmo. Quem sabe.


Vai ter livro de youtuber sim


Tivemos a moda literária de livros de vampiro, livros eróticos, livros de pintar, e a atual é livros de Youtuber. E como toda nova onda literária, entra também na moda reclamar dela, com ou sem lógica ou fundamento.

Eu sou defensora da existência de livros de Youtuber. Nem vou pedir desculpa.

Falaram sobre o conteúdo dos livros, sobre o absurdo de pessoas tão novas que ainda não fizeram nada já lançarem biografias. Criticaram desde os próprios Youtubers, falando que seus vídeos não são relevantes ou são vazios de conteúdo até quem assiste a esses vídeos e alimenta essa cultura (ou falta de). Reclamaram das editoras darem espaço para essas pessoas ao invés de publicarem coisas que realmente importam.


Acontece que Youtubers não estão roubando lugar de ninguém, estão só ocupando um lugar no mercado que ficou "vazio" quando a onda dos livros de colorir passou. Nenhuma editora está deixando de publicar autores porque começaram a publicar livros de Youtuber, até porque, se considerarmos as maiores editoras do país, todas têm vários lançamentos por mês, de vários selos diferentes. Ninguém está perdendo lugar. E livro de YouTuber não estourou "do nada".

A saga Crepúsculo trouxe os livros de vampiro à tona numa época em que também ajudou a abrir as portas do mercado para literatura young adult. Depois de Crepúsculo, o mercado não pode mais ignorar que havia sim uma procura por livros adolescentes paranormais e de outros tipos. Assim, tiveram que prestar atenção a esse público (ou pelo menos começar a prestar atenção) e a dar a ele o que ele queria. O sucesso de Cinquenta tons de cinza tirou das mulheres a culpa por ler livros eróticos e trouxe esse tipo de literatura das prateleiras escondidas para os destaques e listas de mais vendidos, em especial por ter acontecido numa época em que se discute sexo e feminismo abertamente, mas ainda se trata sexualidade feminina como tabu. Cinquenta tons de cinza pegou isso e jogou na cara das pessoas. Livros de colorir tiveram grande demanda como válvula de escape numa época em que ser extremamente ocupado e estressado é cada vez mais visto como algo comum.

Livro de Youtuber não estourou agora à toa. Youtuber começou a ser encarado como profissão de forma recente, e por ser algo novo, é também algo que muitas pessoas ainda não entendem bem como funciona. A influência de canais do YouTube nos hábitos de consumo e comportamento é inegável, e a curiosidade sobre quem são as pessoas por trás desses canais é natural, principalmente vinda do público desses canais. Somando tudo isso à sensação de proximidade que esse público sente com o Youtuber por causa de redes sociais (e considerando que esse público é, em sua maioria, adolescente e jovem adulto) é mesmo tão difícil assim de entender por que os livros que levam seus nomes vendem tanto?

Youtubers, querendo ou não, acabam se tornando celebridades, e o público dessas celebridades está disposto a consumir o que elas têm para oferecer. Livros, por mais que muitas vezes sejam vistos como se fossem Baluartes de Cultura e Conhecimento, também são um produto. Calhou de as editoras e os Youtubers conseguirem lucrar juntando esses dois. E isso não devia ser demérito para nenhum deles.


Editoras precisam lucrar não porque são empresas capitalistas malignas que só querem arrancar dinheiro das pessoas com essas porcarias. Editoras precisam lucrar porque senão elas fecham. Isso não devia ser informação nova. Editora que não lucra, fecha. É só ver o caso da Cosac Naif. E estou falando em lucro, e não em chegar no fim do mês com a conta fechada certinha. O lucro gerado pelos livros que vêm dessas ondas literárias muitas vezes é o que permite uma editora apostar em um livro ou autor que talvez não gere tanto dinheiro em caixa depois, mas que por x motivos (por ser uma aposta da editora, por ganhar prêmios, por ter potencial, tanto faz) vale a pena ter no catálogo. Não dá para em 2016 as pessoas continuarem fazendo textão julgando literatura voltada para entretenimento ou mais popular. Não se chama de mercado literário à toa. Mercado. E todo mercado tem épocas em que determinados produtos têm maior demanda.

Claro que isso não significa que não se pode criticar o conteúdo desses livros. Claro que pode, mas é sempre bom levar em consideração qual o público daquele livro e qual o objetivo desse livro. Duvido muito que a Kéfera tenha escrito o livro dela pensando se o público do José Saramago ia achar bacana, ou que o livro do PC Siqueira tenha sido feito pensando se as fãs de Cinquenta tons de cinza vão achar divertido. Qualquer pessoa pode se interessar por qualquer livro, mas eles sempre são feitos e "marketados" pensando em um determinado grupo de pessoa. E a maioria dos livros de Youtuber que são lançados (biografias dos Youtubers contendo histórias e reflexões pessoais e sobre seus canais) são feitos pensando no público deles - que não é pequeno e não deve ser ignorado só porque tem gente que não curte. Eu sei que isso acaba gerando situações em que livros são lançados às pressas e de qualquer jeito só para não perder o momento, mas isso não é exclusividade de livro de Youtuber. Acontece em todas as novas ondas literárias do momento. Tem nessa, teve na anterior, vai ter na próxima. Se existe uma demanda, o mercado vai cobri-la, e nesse momento as editoras encontraram um grande potencial nos livros de Youtuber. O público quer comprar, os Youtubers querem produzir, as editoras querem vender.

público, editoras e Youtubers
E isso porque eu só mencionei por enquanto as editoras e os Youtubers. Tem também as livrarias. Livraria que não lucra também fecha. Livreiros, em sua grande maioria, recebem por comissão, ou seja, o salário do fim do mês depende do quanto a livraria vendeu. E salário de livreiro já é bem pequeno, viu. Aliás, livraria que não lucra não só fecha como demite funcionários, não abre espaço para eventos, não consegue investir em melhorias não só para os funcionários como para o consumidor. O Jardim Secreto salvou o salário de muito livreiro. O livro da Kéfera ajudou muita livraria a não fechar no vermelho.

E eu nem vou me estender muito na questão de livro de Youtuber formar ou não público leitor. A Kéfera levou milhares de adolescentes para a Bienal. A Jout Jout lota sessões de autógrafo em livrarias. Talvez parte desse público só compre esse livro desse Youtuber e nenhum outro. Talvez parte dele realmente se torne Leitor assim, com L maiúsculo, porque às vezes um livro puxa outro e a gente só precisa encontrar um para começar. Mas os Youtubers levaram para eventos literários e para as livrarias uma quantidade enorme de pessoas que não costuma muito frequentar esses ambientes. Se 10% dessas pessoas ficarem, é ótimo.

Ninguém tem obrigação de gostar de livro de Youtuber. Talvez o mercado esteja mesmo começando a ficar saturado. Claro que pode criticar ou reclamar do conteúdo. Também pode sim ter antipatia sem conhecer, às vezes o santo não bate e pronto. Mas criticar a mera existência desses livros não é só esnobismo, é não entender nada sobre como o mercado literário funciona. E é sempre bom entender qual o contexto de um produto que você consome tão vorazmente - tanto faz se é uma camiseta, um batom ou um livro.