Escrivências: eu não entendi o que foi que eu escrevi aqui


Se isso não aconteceu com você ainda, é questão de tempo.

O texto chega numa quantidade significativa de tamanho ou até mesmo já tá pronto, e você manda pra agente, pra editora ou pros seus leitores beta, pras amigas, pra qualquer pessoa que vai dar uma lida e te ajudar no processo de edição. Essa pessoa que vai ler vai te ajudar a encontrar possíveis furos, problemas e outras coisas que podem impedir que seu texto seja compreendido ou faça sentido. Ótimo. Então a pessoa te manda de volta e você vai dar uma olhada nas anotações, pra ver o que precisa mudar, sumir, aumentar, etc. Rotina comum.

Aparece um comentário num parágrafo: "ficou confuso, precisa arrumar".

Então você relê o parágrafo pra saber o que foi que ficou confuso

e
não
entende
absolutamente
nada.



Não dá pra reconhecer nenhuma palavra ali. As frases nem têm ordem direito. Você tenta pegar pelo contexto, mas não encaixa nada. Você nem lembra de ter escrito aquele parágrafo. Mas não só escreveu, como achou que fazia sentido, senão não tinha colocado aquilo ali.

Aí entra o momento em que você tenta desesperadamente entender o que diabos passou pela sua cabeça pra achar que aquilo ia dar certo. Entra aqui duas alternativas: você coloca a culpa na pessoa que revisou, dizendo que ela que não entendeu a genialidade daquele parágrafo que é tão genial e tão superior a todos os outros parágrafos do mundo que nem você mesma consegue entender direito e segue a vida (é a alternativa errada). Ou você vai consertar a cagada.

Geralmente eu conserto a cagada simplesmente eliminando aquele parágrafo e fingindo que ele nunca existiu, porque quando eu escrevo alguma coisa que nem eu mesma entendi, o negócio é confuso mesmo. Isso costuma acontecer quando acabo divagando demais no texto, e quando tento colocá-lo de volta nos trilhos, já perdi o fio da meada e a ligação entre essa parte do texto e o resto acaba ficando num parágrafo completamente embaralhado. Então só deleto mesmo.

Às vezes isso não é o suficiente pra conseguir consertar o problema, porque nem sempre eliminar o parágrafo confuso significa que seu texto vai fazer sentido. Se você tira B mas A e C não se conectam direito, então vai ter que surgir outro parágrafo ali. Às vezes é melhor começar outro do nada (pra mim sempre é) do que piorar as coisas.

Pode acontecer de você ter sorte de conseguir resolver o parágrafo confuso só reordenando as frases e mudando uma ou outra palavrinha. Sempre que eu tento isso, fica pior, porque eu começo a falar a mesma coisa mas de 3 maneiras diferentes, e vira e mexe essa mesma coisa já foi falada de outras maneiras em alguns parágrafos mais pra frente... tão entendendo o desespero? Meu e da agente, porque às vezes isso leva a uma repetição infinita da palavra "coisas".

Editar um texto é sempre muita emoção porque você nunca sabe o que vai encontrar dentro da própria escrita.


Me deixem ser amarga


Eu sou uma pessoa rancorosa, mas uma rancorosa boazinha até, porque eu quase nunca efetivamente faço algo a respeito disso.

Não preciso nem de todos os dedos de uma mão pra contar o número de vezes que já perdoei alguém nessa vida. Eu digo "deixa pra lá, já foi, já passou, ficou pra trás, segue em frente, tá ok", e eu me esforço pra agir de acordo. Pra deixar pra lá, já foi, já passou, ficou pra trás, segue em frente, tá ok.

Na minha mente eu fico repassando e remoendo o que aconteceu de tempos em tempos, e isso vai continuar acontecendo até o fim da vida, mas eu tento. Eu juro. Na maioria das vezes acabo sendo bem sucedida, e o máximo que acontece é esse rancor virar piada interna, meme ou, dependendo do grau do ódio, indireta no twitter, mas esse quase nunca acontece.

Eu cultivo rancor com o mesmo afinco com que cultivo minhas suculentas. No meu coração tem um buraco sem fundo em que eu vou acumulando, regando o rancor com todo o carinho. O dia que o mundo acabar eu posso facilmente sobreviver me alimentando de todo o rancor que eu tenho acumulado.


As pessoas fazem listas de coisas que gostam e que as fazem felizes pra tentarem se sentir melhor em dias ruins. Tentei - não deu certo. A lista não ocupou nem o número mínimo de linhas necessárias pra uma redação do ENEM. Eu faço listas mentais de pessoas que não suporto, de coisas que me tão raiva, de situações que me fizeram passar ódio. Eu decoro essas listas mentais com canetinhas coloridas e adesivos de glitter.

De alguma maneira, ser amarga assim funciona pra mim. Porque eu abraço o rancor, a raiva, o ódio, o nervoso, o chilique, aí eventualmente fica too much, e eu recorro às coisas que conseguem temporariamente me deixar feliz e o buraco dá uma folga. Às vezes é uma folga curta, às vezes é uma folga longa, mas ela vem. A questão é que eu preciso curtir meu rancor, minha raiva. Porque eles não vão embora tão cedo, e eu preciso aprender a lidar com eles aqui.

Porque esses últimos anos têm sido particularmente ridículos.

Aí aparece a turma da "filosofia zen" pedindo pra me livrar da raiva, que isso não leva a nada, pra ver o lado positivo da balança, ver o copo meio cheio, e eu só tenho vontade de passar a faca no pescoço de quem tem a audácia de me falar isso. Eu não tô precisando de uma manic pixie dream girl pra me ajudar a ver o lado bom da vida. Eu não quero ser uma pessoa superior e iluminada acima dessas pequenezas.

ME DEIXEM SER AMARGA.

Eu não quero ver o copo meio cheio ou meio vazio, eu só quero poder jogar ele na parede.

Antes na parede que na cabeça de alguém.