Me deixem ser amarga


Eu sou uma pessoa rancorosa, mas uma rancorosa boazinha até, porque eu quase nunca efetivamente faço algo a respeito disso.

Não preciso nem de todos os dedos de uma mão pra contar o número de vezes que já perdoei alguém nessa vida. Eu digo "deixa pra lá, já foi, já passou, ficou pra trás, segue em frente, tá ok", e eu me esforço pra agir de acordo. Pra deixar pra lá, já foi, já passou, ficou pra trás, segue em frente, tá ok.

Na minha mente eu fico repassando e remoendo o que aconteceu de tempos em tempos, e isso vai continuar acontecendo até o fim da vida, mas eu tento. Eu juro. Na maioria das vezes acabo sendo bem sucedida, e o máximo que acontece é esse rancor virar piada interna, meme ou, dependendo do grau do ódio, indireta no twitter, mas esse quase nunca acontece.

Eu cultivo rancor com o mesmo afinco com que cultivo minhas suculentas. No meu coração tem um buraco sem fundo em que eu vou acumulando, regando o rancor com todo o carinho. O dia que o mundo acabar eu posso facilmente sobreviver me alimentando de todo o rancor que eu tenho acumulado.


As pessoas fazem listas de coisas que gostam e que as fazem felizes pra tentarem se sentir melhor em dias ruins. Tentei - não deu certo. A lista não ocupou nem o número mínimo de linhas necessárias pra uma redação do ENEM. Eu faço listas mentais de pessoas que não suporto, de coisas que me tão raiva, de situações que me fizeram passar ódio. Eu decoro essas listas mentais com canetinhas coloridas e adesivos de glitter.

De alguma maneira, ser amarga assim funciona pra mim. Porque eu abraço o rancor, a raiva, o ódio, o nervoso, o chilique, aí eventualmente fica too much, e eu recorro às coisas que conseguem temporariamente me deixar feliz e o buraco dá uma folga. Às vezes é uma folga curta, às vezes é uma folga longa, mas ela vem. A questão é que eu preciso curtir meu rancor, minha raiva. Porque eles não vão embora tão cedo, e eu preciso aprender a lidar com eles aqui.

Porque esses últimos anos têm sido particularmente ridículos.

Aí aparece a turma da "filosofia zen" pedindo pra me livrar da raiva, que isso não leva a nada, pra ver o lado positivo da balança, ver o copo meio cheio, e eu só tenho vontade de passar a faca no pescoço de quem tem a audácia de me falar isso. Eu não tô precisando de uma manic pixie dream girl pra me ajudar a ver o lado bom da vida. Eu não quero ser uma pessoa superior e iluminada acima dessas pequenezas.

ME DEIXEM SER AMARGA.

Eu não quero ver o copo meio cheio ou meio vazio, eu só quero poder jogar ele na parede.

Antes na parede que na cabeça de alguém.




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