Enterros, velórios e um post que talvez seja triste mas tudo bem


Depois de 2 anos e meio de tratamento contra um câncer no cérebro, minha mãe faleceu no final de outubro. A quantidade de mudanças acontecendo ao mesmo tempo me faz querer me esconder embaixo da cama ou só ficar sentada no chão chorando até alguém ligar pra minha mãe vir me buscar – o que, por motivos óbvios, não vai acontecer.

Ainda não me acostumei com isso, não sei se algum dia vou, mas entre todas as mudanças uma delas foi a decisão de tentar voltar com o blog, e acho que a melhor maneira de homenagear a minha mãe é usando aquilo que eu, ela e meu irmão sempre tivemos em comum e muito presente nas nossas vidas:

O espírito de porco.



Ela faleceu de manhã, e de tarde uma das minhas primas e meu tio iam cuidar dos trâmites do velório/enterro. Minha prima Isa disse que eu não precisava ir se não quisesse, mas sentia que precisava passar pelo processo todo. Meu irmão pensou o mesmo, então fomos os quatro pra SETEC. A pessoa que nos atendeu disse que não tinha problema nenhum na compra do jazigo, fora um pequeno detalhe: uma carência de 90 dias úteis.



Eu olhei pro Jota (meu irmão), o Jota olhou pra mim, tio e Isa sem entender essa história direito.

90 dias úteis de espera pra poder enterrar. O que eles queriam, que a gente colocasse minha mãe no freezer e esperasse?

A família do meu tio tinha um jazigo num cemitério, e a solução encontrada pra evitar que minha mãe fosse parar dentro do congelador ou no quintal de casa foi “emprestar” esse jazigo até que pudéssemos ir atrás de outro. Problema resolvido, tínhamos agora que escolher o caixão. Na sala própria pra isso, qualquer sentimento forte foi substituído pelo mais completo horror estético:

Todos os caixões eram a coisa mais feia que eu já tinha visto.



Na hora virei pro meu irmão e disse que não ia enterrar a mãe dentro de nada daquilo porque ela ia ficar MUITO puta, meu irmão nem conseguiu responder direito de tão horrorizado que ele estava com aquele monte de pomba entalhada. Demorou um pouquinho mas conseguimos encontrar um que era simples e de boa qualidade.

Burocracia finalizada, recebemos a notícia de que o enterro só poderia acontecer no dia seguinte por causa do horário. Decidimos que seria então naquele dia um velório só pra família e no dia seguinte um pra amigos e conhecidos. Ficamos lá um pouco e não sei dizer o que senti, mas lembro que fiquei levemente puta quando percebi que tinham colado as mãos dela. Já li os livros da Caitlin Doughty, sei que esse tipo de procedimento é comum pra evitar certos acontecimentos como uma mão deslizando sem querer, mas foi estranho.

O corpo ficaria no lugar do velório até o dia seguinte, e meu irmão não se sentiu bem com a ideia de deixar a mãe lá sozinha. A prima disse que ia com ele, então os dois ficariam lá no cemitério até o dia seguinte mesmo.

Relato do meu irmão: quando ele e minha prima chamaram o uber, quase 1 da manhã, e o motorista pediu pra confirmarem o endereço, e os dois confirmaram que sim, era o cemitério, o coitado do motorista dirigiu TRAVADO e sem dizer uma palavra. Ao chegarem lá, meu irmão e minha prima ficaram dentro da sala junto com a mãe, mas por causa do calor tinha muito mosquitinho entrando, então tiveram que desligar a luz. Os dois lá, no cemitério de madrugada, no escuro com a mãe no caixão. De repente, um barulho de ronco. A mãe roncava muito quando dormia, então os dois levantaram na hora e ficaram sem saber se saíam correndo ou não até perceberem que era só o ventilador. Fim do relato.


Corta pro velório no dia seguinte bem cedo. Tinha muito mais gente do que eu pensava, porque minha mãe era assim. E passa hora, passa hora, passa hora, e nada do enterro acontecer. Foram atrás de saber o que é que estava acontecendo pra ter tanto atraso.

Aconteceu foi que ninguém do cemitério lembrou de avisar meu tio que primeiro ele tinha que pedir pra exumarem o pai dele pra poder enterrar a minha mãe. Então tiveram que fazer tudo isso na hora. Por isso atrasou. E atrasou ainda mais. Já estava pensando quantos ossos o pai do meu tio tinha pra demorar tanto assim e a Laura disse que o corpo humano tem cerca de 206 ossos.



Chegou uma senhora que perguntou se a gente tinha chamado alguém da igreja, eu respondi que não frequentávamos nenhuma, ela perguntou se podia fazer uma oração, eu disse ok porque ok, não via problema nenhum nisso. Enquanto ela reunia as pessoas, aproveitei pra ir com alguns amigos comer um pão de queijo. Quando voltamos mais ou menos meia hora depois, a cena era essa: metade das pessoas dentro da sala do velório enquanto a senhora cantava alto, metade confusa sem saber se ficava na sala ou se ia embora e metade realmente indo embora porque era dia de semana e as pessoas precisavam trabalhar (eu sou de humanas, por isso tantas metades).

Eu tenho certeza que se minha mãe pudesse, nessa hora tinha levantado do caixão e ido fumar um cigarro só pra poder sair daquela bagunça no estilo “vocês que lutem”.

Bagunça da oração terminada, quase 4 horas desde o início do velório, era hora do enterro. Colocaram minha mãe no carro pro transporte e...

A tampa do caixão não fechava. O parafuso não parafusava de jeito nenhum.



O ex-namorado da minha tia teve que ajudar a fazer uma leve pressão em cima da tampa pra que conseguisse fechar direito. Não chegou a ser igual quando a gente tem que sentar em cima da mala pra ela fechar, mas foi o suficiente pra eu falar pro Jota:

— Eu não tô acreditando nisso.

— Má, e eu, que vou ter que sentar no caixão se ele não fechar???

Caixão fechado, ele saiu e as pessoas foram indo atrás. Só que no começo o transporte ia meio rápido.

— Jota, eu não vou sair correndo atrás, não.

— Eu nem tenho fôlego pra isso.

Velocidade ajustada, o transporte ia... e ia... e ia... e ia...

— Jota, se continuar indo assim vão acabar jogando a mãe da ribanceira.

— É treinamento, daqui a pouco alguém fala “AÍ GALERA QUANDO FOR FAZER DE VERDADE É ASSIM QUE VAI SER”.

— A gente vai dar a volta olímpica no cemitério.

Finalmente chegamos onde seria o enterro (era bem no fim do cemitério mesmo). Todo mundo ficou numa distância respeitosa, perto da cova só eu, o Jota, a tia e o ex que na época ainda não era ex. Começaram a preparação pra descer o caixão. Silêncio.

Meu celular começa a tocar.

Porque é óbvio que meu celular ia tocar.

A Tassi, a Iris e a Laura tentando com muito custo achar o celular dentro do buraco negro que é a minha bolsa, conseguiram achar, desligaram. Hora de baixar o caixão, e uma das pontas das cordas baixa um pouquinho mais rápido que as outras e eu entrei em pânico por alguns segundos pensando “AH PRONTO VAI CAIR E MINHA MÃE VAI SER ENTERRADA DE PONTA CABEÇA”, mas deu tudo certo.

Vou omitir aqui outro acontecimento pra preservar minha sanidade, mas envolveu uma vontade grande de perguntar pra uma senhora se ela queria ser jogada dentro da cova, já que interrompeu o momento exclusivo da família pra poder chegar perto pra ver dentro.

E foi isso.

Hoje faz 2 meses. Mexer nas roupas dela não foi difícil, mexer nas fotos doeu, já chorei vendo tweet inofensivo falando de mães que demoram pra digitar no whatsapp e já disse “não fala assim comigo minha mãe morreu eu tô triste” pra fazer chantagem pra me trazerem um copo de coca-cola porque eu não queria levantar. Logo eu mudo pra São Paulo, começando minha vida do zero aos 34 anos e completamente apavorada com isso. Não sei o que vai acontecer.

Querendo ou não, a vida continua.



(E comprem logo um jazigo, só pra garantir. Ou um freezer bem grande)

Matei uma aranha sem querer e não sei lidar com isso


Passar aspirador de pó no quarto é uma coisa que exige muita preparação por diversos motivos que na verdade são só dois:
1) Tem sempre um gato dormindo no quarto, eles odeiam o aspirador de pó (menos o siamês) e aqui em casa gatos têm sempre prioridade
2) Eu sou uma preguiçosa do caralho
Dessa vez, por algum milagre divino (há dúvidas sobre a procedência divina da coisa), os gatos estavam todos no quintal, menos o siamês que é surdo então não liga (muito) pro aspirador e eu estava levemente possuída pelo espírito da Marie Kondo, e poeira definitivamente não estava me trazendo felicidade. Então lá ia o aspirador.

Corta pra outra cena.

Tinha uma teia de aranha atrás de uma das estantes do quarto que tinha uma aranha. Essa teia ficava num canto da parede, era relativamente pequena e já tinha uns bons meses. Eu podia mentir e dizer apenas "semanas", mas essa vergonha na cara aqui já não existe mais. Então a teia tinha uns bons meses. E nela ficava só essa aranha. De vez em quando uns restos mortais de coisas que ela deve ter comido, de vez em quando umas coisinhas esquisitas que eu não sabia se eram ovinhos ou sei lá, decoração, mas a questão é que era sempre a mesma aranha, bem pequena. Eu sei disso. Convivi com ela por meses.



Volta pra cena inicial.

Infelizmente, a teia tinha que ir. Eu já tinha tirado outras que tinha encontrado por aí sem querer (minha casa tem quintal e um córrego e mato na frente, acontece, aqui se duvidar você pisca e aparece uma teia de aranha fechando seu olho), e mesmo tendo certo apego emocional àquela teia específica, eu já tinha feito um compromisso comigo mesma de limpar o quarto. E a aranha não estava lá. Só a teia. A teia ia embora, a aranha ia ficar. Ela podia fazer outra teia se quisesse (eu não ia impedir), ou se mudar (eu ia ficar chateada, mas ia entender).

Então apontei o aspirador de pó na direção da teia.

A teia foi-se numa aspirada só.

E a aranha
surgiu
do nada
e
foi
sugada
pelo
aspirador.



Não tive tempo de desviar. Não tive tempo de nada. Ela surgiu e sumiu em instantes pelo cano do aspirador.

E eu fiquei parada, olhando, tentando entender o que tinha acontecido.

Já tem uns dias isso e eu ainda não estou conseguindo lidar com o fato de que aspirei a aranha sem querer.

Eu nunca vou superar isso, gente.

Nunca.